Da Gazeta à Malagueta, a Aurora da imprensa no Brasil
Os primeiros periódicos impressos surgiram no Brasil durante o processo de independência. Em um período em que questões políticas inéditas se colocavam para parcelas da população que jamais haviam sido chamadas a se engajar nos destinos daquilo que ainda estava por ser um país, muitos dos jornais que emergiram no período se propunham a desempenhar um papel didático. Realizando a defesa aberta das suas escolhas políticas - sendo a maior parte delas associada ao constitucionalismo monárquico - os periódicos mais se assemelhavam a folhetos de propaganda do que aos cadernos informativos, como posteriormente seriam caracterizados.
Alguns jornais eram lançados para defender causas mais pontuais: o Correio do Rio de Janeiro surgiu em abril de 1822 para defender a instalação de uma constituinte no Brasil. Mas de uma forma geral, eram porta-vozes de grupos políticos atuantes na época em que a política nacional apenas se formava, incluindo-se aí a imprensa áulica, que era pouco mais do que um registro dos feitos da família imperial. Exemplo clássico deste tipo de imprensa é a Gazeta do Rio de Janeiro, que dedica dois números extraordinários à coroação de d. João VI. Em um período em que a profissionalização do ofício de jornalismo era quase inexistente, políticos, nobres, literatos, enfim, homens de diferentes perfis, mas que defendiam suas posições políticas de forma bem clara, assumiam a linha de frente da recém-nascida imprensa periódica brasileira. Uma imprensa de tipo artesanal, com poucos redatores, periodicidade e duração limitada, formato em geral pequeno.
O ambiente agitado do início dos anos de 1820 propiciava o debate entre posições diferentes. A época, contudo, estava longe de representar o paraíso da liberdade de expressão. Na verdade, esta não seguiu uma evolução linear no Brasil; antes, passou por retrocessos que permitiram, por exemplo, que o jornal A Malagueta, de Luiz Augusto May, fosse empastelado e seu dono, surrado, após desavenças com o imperador d. Pedro I em 1823.
Já em 1821 era fundado o Reverbero Constitucional Fluminense, de Gonçalves Ledo, defensor do sistema constitucional, mesmo ano em que são lançados A Malagueta e O Espelho, este último receptor de textos do monarca Pedro I. A prolífica imprensa corria ainda em grande parte anônima, sempre polêmica e partidária, e em uma época de transformações rápidas que passaram a envolver a vida das pessoas comuns, suscitava discussões frequentes nas ruas, cafés e outros locais de encontro, onde inflamados artigos eram lidos em voz alta.
O despotismo de d. Pedro I arrefeceu o ímpeto dos primeiros anos da década de 1820. Ele começou a reprimir as ideias contrárias ao seu governo, o que levou Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa (também do Reverbero) ao exílio, João Soares Lisboa (do Correio do Rio de Janeiro) à prisão, além do já citado caso do jornal A Malagueta.
Em fins da década de 1820 iniciou-se um período crítico que terminaria apenas com a abdicação do imperador. Os jornais voltaram então à carga, e o número de "pasquins" se proliferou nos anos 1830 de forma inédita, e como não mais voltaria a ocorrer. Várias publicações duravam apenas um número, e eram pouco mais do que um panfleto incendiário. Havia, contudo, jornais mais sérios e de maior duração, mas que não escapavam do tom provocador e das polêmicas frequentes com outras publicações. É o caso do famoso jornal fluminense A Aurora Fluminense, nascida ainda em 1827 e ao qual se juntaria Evaristo da Veiga ainda no ano da sua fundação. O jornal em geral abrigava textos de oposição moderada, tornou-se o mais vendido do Rio de Janeiro e veio a encerrar atividades em 1835. Outro exemplo que marcaria a história do jornalismo brasileiro seria O Observador Constitucional, do médico e jornalista italiano Líbero Badaró. O jornal também era moderadamente liberal, mas no calor dos debates políticos de 1830, o italiano foi assassinado em São Paulo, em uma emboscada.